Jornal "O Aldeão"
No longínquo ano de 1912, um jovem natural de Alte, João de Deus de seu
nome, de 20 anos de idade, solteiro, ambicioso e hábil no manejo das palavras,
funda um jornal.
Intitula-o «O Aldeão» e embora no
cabeçalho apareça «Quinzenário Republicano Independente», diz na apresentação,
que apenas é um defensor dos interesses locais, nada querendo com politica,
porque a politica «é o lodo asqueroso que salpica toda a gente honesta» e que
apenas pugnará pela «boa observância das leis, que o novo regime tão patrioticamente
decretou». Ora é precisamente com as
leis e os homens da justiça que João de Deus e o seu jornal se irão envolver,
dando origem a um episódio, que iremos sucintamente abordar e que marcou
definitivamente os destinos do jornal e do seu director.
Desde
o primeiro número do «O Aldeão» que João de Deus vinha alertando e
reivindicando, junto das autoridades competentes, a conclusão da estrada d´Alte
que há muito se prometia e que até àquela data era apenas tema para comícios.
No nº 5 de «O Aldeão», publicado no
dia 1 de Novembro de 1912, num artigo assinado por João de Deus, com o título
«Estrada do Concelho», o tema é novamente abordado mas desta vez para «ofender»
os responsáveis camarários, acusando-os de «falta de capacidade e competência
falta de habilidade e boa vontade pela causa que lhes deve interessar; e
sobretudo, têm muita falta de compreensão, nada! Outro ofício, vão cavar
batatas e deixem o lugar a outros que o saibam desempenhar com ciso e
compreensão». «São decorridos dois anos da República e três são já as câmaras que
reconhecemos. Esta última é impagável. È um verdadeiro pagode!», «Miseráveis
tartufos!», «Súcia de inqualificáveis déspotas!». Esta adjectivação é apenas
parte da utilizada no artigo em
que João de Deus acusa a Câmara, que, curiosamente, era
dirigida, na altura, por outro altense, o poeta Dr. Cândido Guerreiro, notário
da comarca de Loulé.
No
dia e de Novembro, João de Deus vem a Loulé. Às quatro e meia da tarde,
encontra-se à porta da loja do Sr. António Arez, situada nos baixos do edifício
da Câmara. Cândido Guerreiro aproxima-se e pergunta-lhe se é ele o autor do
artigo editorial do nº 5 de «O Aldeão», ao que ele respondeu que sim uma vez
que o assinava. Pede-lhe para o acompanhar ao que João de Deus se nega,
alegando não o reconhecer como autoridade. Cândido Guerreiro invocando o cargo
de administrador do concelho, dá-lhe ordem de prisão, sendo levado por este à
esquadra policial, onde permaneceu preso cerca de 12 horas.
No
dia seguinte sai um suplemento de «O Aldeão», onde na 1ª página, se lia em toda
a sua largura «Protesto Onroso!», chamando a atenção para o atentado à
Constituição da República, aos direitos elementares de liberdade de expressão e
um artigo assinado por João de Deus, intitulado «A Minha Prisão», onde se
descrevia detalhadamente o ocorrido e onde Cândido Guerreiro era tratado e
apelidado da forma mais indecorosa, possível e imaginária. João de Deus avança
com um processo contra Cândido Guerreiro, que irá ganhar, por ter provado haver
«abuso de autoridade e por ter prendido fora dos casos da lei o queixoso», mas
posteriormente se irão envolver em confrontações físicas e o rancor e o ódio
continua a transparecer sempre que o tema é Cândido Guerreiro que é
classificado de «insigne camaleão».
O
jornal começa a ter uma periodicidade variável, muda de orientação politica,
com o nº 23, filiando-se no Partido Republicano Democrático, liderado pelo Dr.
Afonso Costa e acaba por se extinguir, ao que julgo saber, com o nº 28 publicado
em 28 de Setembro de 1913.
Fonte: Jornal de 24 de Janeiro de 1990 “Luís Guerreiro”

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