Alte no "reino do Algarve" 2
Alte no "Reino do Algarve" 2
Extraído do livro - Na Roda do Tempo, de Isabel Raposo
A ponte de Alte, sobre a ribeira do mesmo nome, já
existia em 1840 e a estrada nacional que liga Alte a Loulé foi aberta a
macadame no terceiro quartel do século XIX. Da ligação de Alte a S. Bartolomeu
de Messines ficou concluído o troço pertencente ao concelho de Silves no último
quartel do da quele século; a parte do concelho de Loulé só se concretizou
depois da República. Nos caminhos para a serra, a circulação com carros de bois
é impraticável e no barrocal a situação não é muito melhor. A maioria das
pessoas desloca-se a pé e os transportes possíveis são os burros, os machos e
os cavalos.
“Em Alte
não há uma estrada transitável nem um caminho por onde se possa andar a cavalo.
Carros só vêm aqui por castigo e nunca se atrevem a entrar na povoação, porque
as ruas, escangalhadas e ladeirentes, encurvadas e estreitas, matariam quantas
cavalgaduras por elas fossem obrigadas a puxar um carro mesmo descarregado (…).
Este povo (…) vê-se obrigado a restringir as suas industrias e o seu comércio
porque não pode com a concorrência dos povos vizinhos, de há muitos anos bem
servidos de viação.” (Paulo Madeira, 1904)
Nota:-
Paulo Madeira, “carta aberta” ao governador civil do distrito e ao
administrador do concelho de Loulé, publicada na Folha do Sul em 10-11-1904.
(…) A linha de caminho de ferro para o Algarve só
é aberta à circulação em 1889 e a estação de Loulé fica a 5km da vila, o que
não favorece as relações comerciais do concelho com o País. Alte, situada a 22
km do município, recorre em primeiro lugar à estação de Messines, a 11km, mesmo
antes de ficar concluída a via entre as duas localidades.
(…) A maioria dos trabalhadores do campo é
analfabeta e a educação da população não é uma prioridade para a política
liberal. Alte é uma das poucas aldeias com escola primária em meados do século
XIX, mas poucas crianças a frequentam, a maioria tem de participar na lavoura.
(…) O senhor d´Alte é o maior proprietário da
região e acumula então os senhorios de Tôr, Salir, Marim, Capela dos Melos e
Casa da Franca. Não reside na aldeia desde final do século XVIII e muitas das
suas terras são aforadas à nova burguesia local. Esta explora os produtos da terra,
os frutos secos, amêndoas, os figos e as alfarrobas do barrocal, os cereais, a
cera e a cortiça da serra, que exporta, tal como a aguardente.
Os trabalhadores do campo sem terra, os rendeiros
e os pequenos agricultores vendem o seu trabalho a troco de salários muito
baixos. Submetidos à autoridade dos novos senhores, as condições de vida
deterioram-se no final do século XIX e muitos são forçados a abalar.
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